Os Pais da Igreja e o Batismo Infantil — Uma resposta a Yago Martins

Introdução

No dia 28/01/2021 o teólogo batista Yago Martins, escritor e pastor cearense, postou um vídeo em seu canal do Youtube, o Dois Dedos de Teologia, por título de: “Os pais da Igreja batizavam crianças?” (confira aqui). Respeitosamente, tal como Martins foi em seu vídeo, pretendo citar algumas frases dele (com suas respectivas minutagens ) para as comentar, isso à luz do que penso ser uma melhor interpretação dos textos dos Pais da Igreja. Pois bem, iniciemos.

Yago inicia seu vídeo afirmando que “O batismo infantil começou no terceiro século. Antes do terceiro século NÃO HÁ registro de debates sobre o batismo infantil dentro de Igreja Cristã, e a gente sabe disso a partir da leitura dos textos primários ali do segundo e do terceiro acerca do assunto. E os textos patrísticos nos fazem entender que o batismo de adultos era a prática normativa no início do Cristianismo, e que esse debate se deu até o quarto século, quando Gregório de Nazianzo começou a permitir o batismo infantil APENAS em situações emergenciais, REJEITANDO esse batismo em outros casos, e o argumento dele era que crianças não podiam confessar pecados, já que o arrependimento estava ligado ao batismo, por isso crianças não poderiam ser batizadas” (Min. 1:50–2:50).

Em primeiro lugar, é necessário pontuar algo: o fato de que não há registros de debates sobre o assunto na Igreja Cristã no segundo século não significa que o batismo infantil era inexistente ou rejeitado. Esse argumento do silêncio não logra efeito. Eu poderia argumentar (fazendo também o mesmo uso dos silêncio dos Pais) que a ausência de debates sobre o batismo infantil significa que não existia polêmica em torno da prática, de modo que era bem quista, algo normal. É interessante que num contexto religioso de confronto e desvencilhar das “sombras do judaísmo”, os cristãos não tenham escrito um texto sequer contra a prática do batismo infantil para a “purificação” existente entre os judeus daquela época.

Muitas pessoas não sabem, mas havia entre os israelitas o costume de batizar os prosélitos, isto é, convertidos ao judaísmo de outras nações, chamado miqveh. Como o rev. Gyordano Montenegro bem aponta, “embora haja um batismo cristão, o batismo não é uma novidade cristã. O substantivo baptismos e o verbo baptizō são usados no Novo Testamento com respeito aos banhos de purificação da lei mosaica (Mc. 7:4; Hb. 9:10)”. Quando um pagão se convertia, se houvessem bebês em sua família, esses infantes eram batizados também. Confira esse lindo vídeo de um miqveh de um bebê judeu. SE o argumento do silêncio é válido, eu poderia questionar o por que os primeiros cristãos jamais teceram críticas a essa prática, embora tecessem comentários reprobatórios a outros costumes judaicos como, por exemplo, a guarda do sábado e assim concluir que eles NÃO criticaram porque aprovavam. Obviamente, esse não é um bom caminho a ser seguido.

Em segundo lugar, é preciso desmistificar a posição dos pais, em especial, S. Gregório de Nazianzo (esse Pai da Igreja que, ao contrário do que Yago diz, jamais probiu ou rejeitou o batismo infantil em algum sentido), e também apontar para algumas evidências do segundo século que eu considero serem bem convincentes.

Qual era a função do batismo para os Pais da Igreja?

Antes de qualquer ponderação sobre QUEM poderia ser batizado (para os Pais), é necessário pontuar qual era a natureza do batismo para eles. Ou seja, o que, na visão dos primeiros líderes do cristianismo, era o objetivo deste sacramento?

Diferentemente dos cristãos memorialistas da atualidade, os Pais da Igreja, em absoluta unanimidade, ensinavam que o batismo era um sacramento no qual Deus regenerava e concedia o perdão de pecados. Para eles, o batismo salvava. Como pontua o rev. Gyordano Montenegro,

“A doutrina da Regeneração Batismal é unânime entre os Pais da Igreja. De fato, entre eles há mais acordo sobre Regeneração Batismal do que sobre a Trindade… A Regeneração Batismal aparece como doutrina universal dos Pais, sem divergências, sem debate e sem disputa, e desde muito cedo, em lugares bem diferentes… Sequer chegamos à metade do século II. Estamos a menos de cinquenta anos dos últimos escritos do Novo Testamento, e a concepção do Batismo como meio de salvação já é clara”.

Três dos maiores patrólogos do mundo confirmam essa interpretação dos escritos dos Padres da Igreja Primitiva: Schaff, Kelly e Pelikan.

“Desde o início, o batismo foi universalmente aceito como um rito de Admissão… No tocante a sua significação, sempre foi visto como remissão de pecados..” (cf. J. N. D. Kelly. Early Christian Doctrines, p. 193, 207, 428ss).

“Essa ordenança [a do batismo] foi conhecida na Igreja Primitiva como o sacramento do novo nascimento ou da regeneração, um rito solene de iniciação na Igreja… [Para os pais] seu efeito consiste no perdão de pecados e na comunicação do Espírito… Na doutrina do Batismo nós temos muito maior base para falar de um Consensus Patrum [Consenso dos Pais] do que na doutrina da Ceia do Senhor” (SCHAFF, Philip. History of the Christian Church vol. 2 — Ante-Nicene Fathers. CCEL, p. 241–243).

“Embora referências à doutrina do batismo estejam espalhadas por toda a literatura cristã dos séculos II e III, apenas um tratado existente do período é dedicado exclusivamente ao assunto, o de Tertuliano… Tertuliano argumentou que nenhum dos quatro dons básicos do batismo poderia ser concedido se esse dualismo [de Marcião] forem mantidos. Os quatro dons eram: a remissão dos pecados, a libertação da morte, a regeneração e a concessão do Espírito Santo… É digno de nota que Tertuliano, independentemente de quão montanista ele possa ter sido neste ponto, estava resumindo o que a doutrina da igreja foi em seu tempo — bem como provavelmente antes de seu tempo e certamente desde seu tempo” (PELIKAN, Jaraslov. The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine, volume 1: The Emergence of the Catholic Tradition 100–600, p. 163ss).

Vejamos, por exemplo, o Didaquê (70–100 d.C.), também citado por Yago. Ele diz que “ninguém coma nem beba da Eucaristia sem antes ter sido batizado em nome do Senhor pois sobre isso o Senhor disse: ‘Não deem as coisas santas aos cães’” (Cap. IX, 5). Basicamente, o documento proíbe que pessoas não batizadas participem da Ceia do Senhor. Aquele que não foi batizado é tratado como um “cão” e o batismo opera uma mudança tal que aquele que anteriormente era “cão” (impuro) pode, então, mediante a recepção do sacramento, participar. Essa citação pressupõe um realismo sacramental. Já a Epistola de Barnabé, mais ou menos no mesmo período, declara: “Quanto à água, está escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos pecados, mas que eles próprios teriam constituído um” (Cap. XI). No contexto, Barnabé demonstra a superioridade da fé cristã dizendo que enquanto Israel não recebeu o batismo para a remissão de pecados, os cristãos, os participantes da nova aliança, o receberam. Já em outro escrito bastante famoso na Igreja, por volta dos anos 100 ao 150, encontramos: “Eu escutei, Senhor”, lhe disse, “de alguns mestres, que não há outro arrependimento senão aquele que toma lugar quando nós DESCEMOS AS ÁGUAS e obtemos remissão de pecados”. Ele [o Senhor], disse para mim: ‘Você escutou corretamente (…)” (Pastor de Hermas, 4:3:1–2). Lembrando que esse escrito quase entrou no cânon. Mais algumas referências:

São Justino Martir (148–155 d.C.)

“Depois os conduzimos a um lugar onde haja água e pelo mesmo banho de regeneração, com que também nós fomos regenerados, eles são regenerados, pois então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo. É assim que Cristo disse: “Se não nascerdes de novo, não entrareis no Reino dos Céus””” (Primeira Apologia, Cap. LXI, 3–4).

São Teófilo de Antioquia (181 d.C.)

“Isso se tornaria um sinal de que haveria um tempo futuro onde os homens receberiam compunção e remissão de pecados mediante água e o lavar de regeneração” (Para Autólico, Cap. II, 16).

Se o Batismo não era visto como um símbolo ou emblema de fé, mas como a remissão e o lavar de pecados, é bem difícil imaginar os Pais da Igreja excluindo as crianças desse sacramento, sabendo que eles entendiam (citando por vezes Jo 3:5, como Justino) que o renascimento é indispensável para entrar no reino dos céus. Assim, mais uma vez arremata o rev. Gyordano: “Para todos os Pais da Igreja, o Batismo salva. Todos os Pais. Sem exceção. SEM EXCEÇÃO. Se você entende isso, entende que todos eles batizavam crianças. Nenhum Pai da Igreja é “credobatista”, nenhum jamais diz que devemos batizar apenas pessoas que professam fé conscientemente. Essa teologia só surgiu no século 16. Ela é realmente uma inovação”.

Respondendo as objeções de Yago

Para iniciar, do minuto 3:00 em diante, Martins argumenta que o Didaquê prescrevia jejuns aos batizados. O que não podemos é concluir, a partir disso (como o Yago tenta fazer), que crianças não eram batizadas. Particularmente, penso que os Padres da Igreja tinham o bom senso de exigir de cada um requisitos mais acessíveis para sua faixa etária e, portanto, que o jejum era somente exigido dos adultos, mas, ainda que os jejuns fossem exigidos de todos os batizados sem exceção, qual seria o problema em crianças jejuarem? Quando o povo de Deus jejuava no AT, até as crianças jejuavam. Como está escrito: “Então Josafá sentiu grande medo, decidiu buscar o socorro do SENHOR, e convocou jejum nacional em toda a terra de Judá… E todos os homens de Judá, com suas mulheres e seus filhos, até as crianças de colo, estavam ali em pé, buscando ao SENHOR” (2 Cr 20:3,13) e também: “Toquem a trombeta em Sião, proclamem um santo jejum, convoquem uma reunião solene. Reúnam o povo, santifiquem a congregação, congreguem os anciãos, reúnam as crianças e os que mamam no peito. Que o noivo saia do seu quarto, e a noiva, dos seus aposentos” (Jl 2:15–16). Havia precedente cultural, religioso e escriturístico para o jejum infantil. Por que não?

Depois, no minuto 5:00, Yago diz que Justino Mártir ensinava que só poderiam ser batizados aqueles “persuadidos a crer que o ensino era verdadeiro se comprometendo a viver de acordo com o que foi ensinado, o que torna impossível que os bebês sejam batizados”. Contudo, basta consultar o cap. 61, no qual o assunto é tratado na sua Apologia, e você verá que nele não consta uma linha SEQUER sobre um requisito absoluto de que todos os candidatos ao batismo “estejam persuadido da veracidade do ensino e compromisso público de viver em harmonia com o que foi ensinado”. O que de fato o texto ensina é que devemos instruir todos aqueles já persuadidos da verdade da fé cristã a prepararem-se para o batismo com jejum, e não que só podem ser candidatos ao batismo os que são adultos persuadidos. São instruções para o que devemos fazer com aqueles adultos alcançados pelo evangelismo, não uma lista de exigências para poder participar do sacramento.

Já no que se refere a argumentação baseada em Aristides de Atenas, é realmente lamentável. O mesmo não diz em nenhum lugar da sua Apologia — como você pode consultar aqui — que os “filhos dos cristãos só eram chamados de cristãos depois de uma experiência de conversão pessoal”. Realmente não sei a que trecho dessa obra o Yago tentou fazer alusão. Penso que talvez ele se refira ao trecho do cap. II, no qual o Pai da Igreja afirmará o seguinte: “E até o dia presente aqueles que tem acreditado nessa pregação são chamados de Cristãos e se tornaram famosos”. Mas, sinceramente, penso que é ultrapassar demasiadamente a intenção do antigo filósofo cristão quando a redigiu. Essa é uma frase que poderia sair tranquilamente da boca de qualquer pessoa que aprova o batismo infantil.

Então, no minuto 7:00 em diante, Yago evoca o testemunho de Tertuliano de Cartago (180–220 d.C.), que ele diz ser o Pai que “escreveu o primeiro grande tratado sobre o batismo”. E ele logo afirma que Tertuliano usa a própria “tradição da Igreja contra a inovação litúrgica do batismo de crianças”. Porém o que lemos em Tertuliano é o seguinte: “Então, de acordo com a circunstância e disposição, e até mesmo a idade, no que se refere a cada um individualmente, o atraso do batismo é preferível, principalmente, todavia, no caso de uma criancinha” (Sobre o Batismo, cap. XVIII). Fazendo a leitura do seu tratado e considerando o trecho acima, é mister pontuar que (1) Tertuliano em nenhum momento menciona a tradição para negar o batismo as crianças, como Yago diz no vídeo; (2) a linguagem que Tertuliano usa é de conveniência (preferência) e não de licitude ou ilicitude, ele não diz que é errado batizar crianças, mas que é “preferível” o atraso do batismo no caso de criancinhas. Credobatistas, em contrário, não simplesmente acham mais conveniente batizar adultos, e sim afirmam que não podemos batizar senão aqueles que são maduros o suficiente para fazer um compromisso consciente de fé.

Depois de mencionar Tertuliano, Yago tenta apelar para S. Hipólito de Roma (170–236 d.C.). Tristemente, Yago ignora as informações que o próprio Hipólito dá sobre as crianças batizadas e diz que, na verdade, o teólogo de Roma estava falando de crianças que já poderiam professar conscientemente a fé, e, portanto, não temos aqui um caso a favor do pedobatismo. A verdade é que Hipólito dirá: “As crianças devem ser batizadas primeiro. Deixai falar por si mesmas todas as crianças que podem responder por si. E se alguma criança não pode responder por si mesma, deixe seus pais falarem por ela ou alguém de sua família” (Tradição Apostólica, Cap. XXII, 4). Ou seja, o teólogo romano está instruindo a Igreja de como deveria ser realizado o batismo de uma criança que não poderia responder por si mesma. Nesse caso, os seus pais poderiam falar por elas para que fossem batizadas. Cai por terra a ideia de que Hipólito só menciona crianças que podiam fazer profissões conscientes.

Depois, Yago apela para São Cipriano de Cartago (200–260 d.C.) com a finalidade de mencionar o fato de que a circuncisão não era utilizada como argumento. Assim, é demonstrado que aqueles cristãos não tinham a mesma mentalidade pactual de Westminster. Destarte, convenientemente ocultou o fato de que ele, um dos pais mais influentes de todos os tempos, defendeu claramente o pedobatismo:

“A fé nas Escrituras Divinas nos declaram que todos, sejam crianças ou maiores, temos a mesma igualdade nos dons divinos… se até aos que são os maiores pecadores, e os que haviam pecado contra Deus, quando creem, lhes é concedido a remissão dos pecados e nada se vê impedindo o batismo e a graça, deveríamos impedir um bebê? Que sendo recém nascido, não há pecado, salvo, que nascido da carne de Adão, contraiu o contágio da morte antiga em seus nascimento?… E, portanto, querido irmão, esta foi nossa opinião no concílio, que por nós, nada deve impedir o batismo e a graça de Deus, que é misericordioso, amável e carinhoso para com todos. Que, posto que é observado e mantido em respeito a tudo, nos parece que se deve respeitar em todos os casos INCLUSIVE nos das crianças…” (Carta 58, A fé sobre o batismo infantil).

Depois de tudo, caminhando para o final do vídeo, no minuto 13:00 Yago menciona a Constituição Apostólica, um famoso documento do século IV. Mas a verdade é que nesse documento nenhum til sequer é dito contra o Batismo Infantil. Pelo contrário: “Batizem suas crianças… pelo que Ele [Jesus] disse, “deixem que as criancinhas venham até mim e não as proíbam”” (Constituição Apostólica, 7.457). Finalmente apela para o testemunho de Gregório de Nazianzo, que teria, supostamente, nesse mesmo período, se levantado contra a prática do batismo de crianças. Será mesmo?

Segundo Yago, Gregório “costumava se opor ao batismo de infantes com exceção do risco de morte”. Antes de qualquer consideração, é preciso perguntar: qual credobatista está disposto a batizar um bebê que esteja em perigo de morte? Mesmo se fosse verdade que Gregório tivesse tal posição, será que é realmente consistente citá-lo como um exemplo de credobatista entre os Pais? Deixando de lado essas considerações, vamos ao que o próprio bispo escreveu. Em primeiro lugar, é necessário pontuar que Gregório apenas recomendava (e não proibia ou se opunha, como Yago queria) como uma opinião pessoal — vulgo: recomendação — que o batismo fosse postergado até os TRÊS anos de idade: “E quanto as demais crianças [que não correm risco de morte]? Está aqui minha opinião: Esperem que cheguem a idade de 3 anos, de modo que sejam capazes de compreender e expressar brevemente os mistérios; apesar da imperfeição de sua inteligência recebem o sinal, e seu corpo, o mesmo que sua alma, se encontram santificados pelo grande sacramento da iniciação” (Sobre o Santo Batismo, Oração 40, 26). Novamente: qual credobatista batizaria bebês de três anos de idade? Enfim, além de dar a sua própria opinião, Gregório também testemunha da fé geral da Igreja Primitiva que era claramente favorável ao batismo das crianças o mais cedo o possível. No mesmo contexto, o bispo mencionado coloca o Batismo como o meio pelo qual nós somos consagrados e purificados para Deus: “Vamos então ser batizados para que possamos ganhar a vitória; participemos das águas purificadoras, mais purificadoras do que o hissopo, mais puras do que o sangue da lei, mais sagradas do que as cinzas da novilha espargindo o impuro…” (Sobre o Santo Batismo, Oração 40, 11). Logo após, exorta os crentes a não retardar os benefícios do batismo: “Vamos batizar hoje, para não estar obrigado a fazê-lo amanha. Não retardemos o benefício como se não ocasionasse algum problema” (Idem). E então insiste que os bebês devem ser consagrados ao Senhor (pelo batismo), antes mesmo que os seus dentes venham a nascer, criticando pastoralmente as mães que de alguma forma tem receios em relação ao sacramento para os pequeninos: “Incluindo as crianças: não dê tempo para a malícia apoderar-se deles, santificai-os quando todavia são inocentes, consagrai-os ao Espírito quando todavia não tenham nascido os dentes. Que falta de coragem e que falta de fé a das mães que temem o caráter batismal pela debilidade de sua natureza” (Ibidem, 17). Portanto, considerar Gregório “ credobatista” é um erro imenso.

Outro erro é colocar Cirilo de Alexandria como um defensor do credobatismo meramente por causa de uma lista de requisitos para o batismo que ele enumera, sendo que lá não diz nada contrário ao batismo infantil, e, ao mesmo tempo, em outro lugar, o próprio teólogo fez menção da prática de forma positiva: “Uma criança recém-nascida é trazida para receber a unção de iniciação, ou melhor, de consumação por meio do santo batismo” (Comentário em João 7).

Evidências do Século II

Tendo Hipólito de Roma nascido no ano de 170 d.C., seriamente penso que é razoável considerar sua defesa do batismo infantil uma evidência pertencente ao século II. Mas, além de Hipólito, encontramos uma referência implícita para o batismo infantil em Irineu que eu considero extremamente significativa.

Para Irineu de Lyon (130–200 d.C.), o meio pelo quais os homens eram purificados e regenerados era a água batismal:

“Pois como éramos leprosos no pecado, somos assim purificados por meio da água sagrada e da invocação do Senhorsendo espiritualmente regenerados como bebês recém-nascidos, assim como o Senhor declarou: “Se o homem não nascer de novo pela água e o Espírito, ele não entrará no reino dos céus” (Fragmento 34).

E, para ele, haviam bebês regenerados:

“Ele veio para salvar por meio de Si mesmo todos, eu digo, que por meio Dele são renascidos para Deus, bebês e crianças, e meninos, e jovens e velhos” (Contra as Heresias, 2:22:4).

Logo, se perguntássemos a Irineu como os bebês poderiam ser renascidos, purificados e salvos ele responderia: por meio da água sagrada e da invocação do Senhor. Mais conhecida como… Batismo.

Para uma lista exaustiva de citações dos Pais em favor do batismo infantil, clique aqui.

Conclusão

Em qualquer estudo que fazemos a respeito dos Pais, é necessário consultar as citações atentamente para que possamos compreendê-las em seu verdadeiro sentido, a saber, no próprio fluxo textual de onde foi retirada.

Talvez, o maior problema com o vídeo do Yago tenha sido a dependência demasiada do material “Credobatismo: sinal da nova aliança” — tão recomendado pelo pastor cearense no vídeo — como fonte secundária, o que o impediu de analisar com maior precisão as citações nos seus contextos originais e ler nelas aquilo que os autores do livro queria que fossem lido. Creio que o apresentador do Dois Dedos de Teologia fez o que podia de melhor com os materiais ao seu alcance.

Assim, creio ter demonstrado que muitas citações foram interpretadas equivocadamente na fonte consultada por ele e também ter apresentado mais evidências a favor do pedobatismo nos Pais da Igreja.

Enfim, o debate não está encerrado. Seria arrogância fazê-lo. Continuemos estudando e buscando ao máximo o possível ser honestos em nossas leituras dos primeiros teólogos que catequizaram a Igreja que Jesus deixou nos primórdios. Isso sempre em tom de respeito e reverência, pois tratamos com o legado de homens que deram suas vidas pela preservação da sã doutrina na Igreja. Amém.

Por: Jadson Targino

07/02/2021.

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Seminarista pelo CETAD/PB (seminário da Assembleia de Deus na Paraíba), tradutor e graduando em Ciências da Religião pela UFPB.

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