Oração pelos mortos: uma resposta ao pr. Rodrigo Caeté (parte 1)

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John Wesley preaching in his father’s burial

Introdução

Confesso que não pretendia escrever esse texto por dois motivos: (1) o imenso respeito que possuo em meu coração pelo rev. Rodrigo, a quem reconheço como um ministro fiel do Evangelho, (2) a realidade de que — possivelmente — serei “cancelado” por muitos evangélicos. Instigado, todavia, pelo próprio pr. Caeté, que contatou-me e também mostrou-se aberto ao diálogo, resolvi redigí-lo.

Reconheço, antes de começar, que trata-se de um assunto delicado e por isso, recomendo a leitura do artigo do rev. Gyordano Montenegro (aqui) para mais fundamentações concernentes a visão favorável.

O artigo será dividido em duas partes. Uma primeira ponderação, considerando os dados históricos e situando a discussão corretamente (sem “caça as bruxas”) e uma segunda, maior e mais importante ponderação que levantará as fundamentações exegéticas.

Discussão histórica

O pr. Rodrigo Caeté inicia seu artigo (confira aqui) fazendo uma afirmação, no mínimo, ousada: “digo que SEMPRE esteve morto [espiritualmente] quem incita qualquer tipo de oração pelos mortos… na verdade, algumas vezes é possível sentir o odor putrefato de alguns líderes, que ao invés de se deixar permitir ser comido pelos vermes, exalam o odor pútrido que sai através das palavras de morte dos seus lábios” (observação: depois da leitura do meu artigo, o pr. Caeté achou por bem alterar o artigo dele, modificando a sentença que citei aqui, retirando-a. Achei por bem ressaltar isso, pois achei uma atitude louvável da parte dele ter reconhecido que a generalização anterior foi inadequada e tê-la removido).

Pois bem, não sendo a discordância proibida, penso que podemos expor nossa opinião livremente com a finalidade de contestar aquilo que nos parece falso. Quando, porém, passamos a julgar a vida espiritual dos nossos oponentes do âmbito intelectual (por causa de questões secundárias!) ultrapassamos todos os limites estabelecidos pela santa palavra de Deus. É o caso da sentença acima, infelizmente. Digo isso porque embora a oração pelos falecidos seja um assunto delicado entre os evangélicos na atualidade, é fato que em toda a história da Igreja (até o século XVI) absolutamente nenhum concílio, pai da Igreja ou sínodo se levantou contra essa prática. Como o bispo anglicano William Forbes (1585–1634) bem nos informou:

“O costume de fazer orações e oblações pelos falecidos é antiquíssimo, e mui unanimemente recebido ao longo de toda a Igreja de Cristo, desde o tempo mesmo dos apóstolos; então não deve mais ser rejeitado, como o é agora pelos protestantes, como se fosse ilícito, ou ao menos inútil e supérfluo” (Considerationes Modestae, trad. rev. Gyordano Montenegro)

A oração pelos falecidos era um costume comum no judaísmo do período do segundo templo (cf. 2 Mc 12:43–46, Tb 12:12), judaísmo do qual a Igreja emerge!

Observo, para evitar mal entendidos, que citei os apócrifos (ou ‘deuterocanônicos’) não para estabelecer essa doutrina (pois somente se estabelece a fé nos 66 livros canônicos!), mas como fontes históricas que evidenciam claramente que a prática era bem generalizada entre os judeus dos tempos de Jesus.

Enfim… Dentro de um contexto cultural onde a oração pelos mortos era comumente realizada, é de se estranhar que os apóstolos — homens que criticaram por diversas vezes em suas epístolas costumes (sejam judaicos ou gentílicos) que não poderiam ser mantidos por quem quer que quisesse ser verdadeiramente cristão, chegando a listá-los (cf. 1 Pd 4:3–4, Cl 2:16–17; At 15:19–20) — não tenham deixado qualquer registro escrito contra o costume se ele fosse realmente tão prejudicial. Já no que se refere a Igreja pós-apostólica, esta não somente “perdeu a oportunidade” para criticar a prática como, na verdade, a endossou abertamente.

O grande teólogo Tertuliano de Cartago, pai da Igreja amplamente honrado por ter sido um dos pais que ajudaram a sistematizar a doutrina da Trindade, escreveu já no século II: “Sempre que chega o aniversário, fazemos oblações pelos falecidos como homenagens de aniversário” (De Corona, Cap. 3). Com oblações, Tertuliano se refere a celebração da Eucaristia e as orações que a acompanhavam, conforme o contexto do mesmo capítulo. Tertuliano também descreve o comportamento de uma viúva crente da sua época: “Na verdade, ela ora por sua alma, e pede refrigério para ele enquanto isso, e comunga (com ele) na primeira ressurreição; e ela oferece (sua oblação) nos aniversários de seu falecimento” (De Monogamia, cap. 10). Assinalo que era uma tradição da Igreja oferecer a Santa Ceia como uma “oblação” em favor dos fiéis que já haviam partido. O bispo africano Agostinho de Hipona (século IV) testifica da prática:

“Não há dúvida, porém, de que as orações da santa Igreja, o salutar sacrifício e as esmolas distribuídas em benefício por suas almas, ajudam os mortos, para que o Senhor tenha misericórdia com seus pecados. A Igreja universal mantém a tradição dos Padres: que se reze por aqueles que morreram na comunhão do corpo e do sangue de Cristo, quando são lembrados oportunamente na celebração da Eucaristia, e se declara que o sacrifício é oferecido também por eles. Quando, em sua memória praticam-se as obras de misericórdia, quem duvidará que as orações dirigidas a Deus aproveitam aos defuntos; mas somente àqueles que viveram de tal forma que lhes possam ser úteis após a morte” (Agostinho, Sermão n° 172).

Em outro dos seus escritos, também declarou: “A Igreja tomou a si o encargo de orar por todos os que morreram dentro da comunhão cristã e católica. Ainda que sem conhecer-lhes o nome, ela os inclui numa comemoração geral de todos eles. Desse modo, aqueles que não mais possuem pais, filhos ou outros parentes e amigos, para auxiliá-los nesse mister, são amparados pelo sufrágio dessa piedosa mãe comum” (Agostinho. O Cuidado Devido aos Mortos, cap. IV, 6).

A oração pelos falecidos não somente é respaldada pela Patrística (como ficou evidente) como também foi avalizada por diversos teólogos protestantes de peso ao longo da história. O respeitável pastor luterano rev. Daniel Artur Branco testifica que “Lutero e o Livro de Concórdia não proibiram em si a oração pelos mortos”. Podemos conferir facilmente a veracidade dessas informações:

“No que se refere aos mortos, a Escritura não nos dá nenhuma informação sobre esse assunto, portanto eu penso que não é pecado orar com devoção livre dessa maneira ou em devoção similar: “Senhor Deus, se essa alma está numa condição acessível a misericórdia, sejas gracioso com ela”. E que se faça uma ou duas vezes, isso é suficiente” (LUTERO, Martinho. Confession Concerning Christ’s Supper. Luther’s Works — Vol. 37, p. 369. Tradução minha).

“Sabemos que os antigos [os pais da Igreja] falam de oração pelos mortos, coisa que não proibimos…” (MELANCHTON, Filipe. Apology to the Augsburg Confession. XXIV, 94. Tradução minha).

O grande avivalista rev. John Wesley, querido por praticamente todos os evangélicos da atualidade, também declarou:

“Neste tipo de oração geral, portanto, pelos fiéis falecidos, considero-me claramente justificado, tanto pela Antiguidade primitiva, como pela Igreja da Inglaterra, e pelo Pai Nosso (…) Eu creio que rezar pelos fiéis falecidos é um dever a ser observado” (John Wesley In: HODGES, John. John Wesley in Company With High Churchmen. London, 1872, p. 84–87. Tradução minha).

Outro escritor bem respeitado pelos evangélicos de forma geral, o anglicano CS Lewis, é claríssimo em descrever seu apoio ao costume:

“Claro que eu oro pelos mortos. O ato é tão espontâneo, quase inevitável, que só o argumento teológico mais coercivo seria capaz de me dissuadir. E desconheço como o restante das minhas orações sobreviveria se essas, pelos portos, fossem proibidas. Na nossa idade, a maior parte daqueles a quem mais amamos já morreu” (Oração: Cartas a Malcom, Carta XX).

Até mesmo o reformador Ulrich Zwingli, um dos mais importantes teólogos reformados de todos os tempos, a permitiu: “Que a humanidade piedosamente rogue a Deus para que Ele tenha misericórdia pelos mortos eu não condeno” (ZWINGLI, Ulrich. Sixty-Seven Articles).

Segundo Rodrigo Caeté, “sempre esteve morto quem incita qualquer tipo de oração pelos mortos”. Ora, por esta generalização deveríamos considerar Lutero, Filipe Melanchton, Agostinho, John Wesley, Zwinglio, CS Lewis e Tertuliano — grandes homens de Deus, só um tolo duvidaria disso! — mortos espirituais! Eu não acho que o assunto da oração pelos mortos deve ser levado por esses meandros. Ainda que a Igreja toda antes do século XVI estivesse errada sobre isso (e penso que não esteve) e que esses grandes teólogos citados tenham se equivocado (muito improvável) penso que aquele que advoga pela posição contrária a intercessão pelos falecidos deve reconhecer que é um assunto no qual pode haver discordância saudável, pois não podemos condenar ao inferno homens como os mencionados (lembrando que falamos aqui de crentes pios da mais alta estirpe).

Feitas essas considerações e deixando claro que somente a partir de citações históricas e de grandes teólogos não almejo convencer ninguém mas provar que é um assunto passível de discussão, passemos então para a segunda ponderação.

Seminarista pelo CETAD/PB (seminário da Assembleia de Deus na Paraíba), tradutor e graduando em Ciências da Religião pela UFPB.

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