O erro de Calvino em relação a Trindade

João Calvino

Indiscutivelmente, João Calvino foi o exegeta da Reforma e um dos maiores intérpretes de todo o Cristianismo. Sua grandeza como teólogo, contudo, não o exime de ter cometido alguns equívocos doutrinários.

Particularmente, penso que Calvino cometeu um erro em relação a doutrina da Trindade conforme explicada nos credos universais da Igreja Cristã, erro esse, aliás, que é seguido por muitos exegetas da atualidade. Nas Institutas (1.13.29), Calvino afirma categoricamente que considera a Doutrina da Geração Eterna uma tolice. Ele escreveu:

“Por que, de que serve disputar se o Pai gera eternamente? Tendo como indubitável que desde toda a eternidade há em Deus três Pessoas, este ato contínuo de gerar não é mais que uma fantasia supérflua e frívola”.

Aqui Calvino considera a geração eterna (o que ele denomina “contínuo ato de gerar”) uma fantasia supérflua e frívola.

O teólogo Gary Crampton (na época, presbiteriano) em seu livro “Cristo, o Mediador: um estudo da Cristologia de Westminster”, infelizmente concordou com Calvino e chegou a afirmar o seguinte:

“Contudo, tristemente há outro modo como os teólogos têm utilizado a terminologia que encontramos na Confissão, um modo formulado no Credo Niceno (325 d.C.), no Credo de Constantinopla (381 d.C.) e no Sínodo de Toledo (589 d.C.). O Credo Niceno, por exemplo, diz que o Filho foi eternamente gerado “da essência do Pai”.[60] Na melhor das hipóteses, essa linguagem é implicitamente subordinacionista, e João Calvino a contestou fortemente, declarando ser uma “tolice” a doutrina da “geração eterna” do Filho” (CRAMPTON, 2017. Edit. Monergismo, pos. 1040–1049. [edição de Kindle]).

Segundo Gary Crampton, João Calvino contestou a linguagem usada nos credos ecumênicos, a qual considerava “subordinacionista”! Lamentável.

Por ironia do destino, na época que Armínio era professor do seminário (na ocasião, Beza era diretor!) um aluno questionou o fato deste pastor holandês já mencionado usar a linguagem dos credos ecumênicos para se referir-se a Jesus, alegando que isso tornava Armínio um “ariano” subordinacionista. Então, Deus levanta Armínio naquela faculdade e permite que — com o seu auxílio — o teólogo holandês defenda a doutrina da Geração Eterna. Assim, atuou habilmente como um fiel baluarte dos credos históricos da Igreja naquele local. Resultado: Beza ficou ao lado de Armínio e assentiu que essa era a posição correta! Armínio escreveu:

Toda a Igreja antiga, tanto a grega como a latina, sempre ensinaram que o Filho tem a sua divindade a partir do Pai, por geração eterna (…) O processo de origem de uma pessoa a partir da outra é o único fundamento que já foi usado para defender a unidade da essência divina das Pessoas da Trindade” (Obras de Armínio — Vol. 1, p. 236, CPAD).

Corretíssimo! Negar a Geração Eterna pode gerar dois erros: Sabelianismo ou Triteísmo, conforme argumentou o teólogo.

O teólogo François Turretini, grande defensor da Ortodoxia reformada e dos padrões de fé de Westminster, escreveu a favor da doutrina da Eterna Geração mostrando que não há nada de subordinacionismo ou arianismo na linguagem utilizada pelos credos ecumênicos:

“Como toda geração indica uma comunicação de essência da parte do gerador para o gerado (pelo qual o gerado se torna como o gerador e compartilha a mesma natureza que ele), assim esta maravilhosa geração é corretamente expressa como uma comunicação de essência do Pai (pela qual o Filho possui indivisivelmente a mesma essência que ele e é feito perfeito como ele)” (Institutes of Elenctic Theology, vol. I — Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 1992 — págs. 292–93).

Diante de tudo isso, alguns podem me questionar dizendo que em vários lugares Calvino teria afirmado a geração eterna. A questão não é somente afirmar. A questão é compreender o que é a doutrina da geração eterna corretamente. O pai da Igreja Hilário de Poitiers (comentarista do credo niceno) define a geração eterna como “acreditar de forma correta que ambos são de uma só essência, já que o Filho não poderia ser gerado de nenhuma substância que não a da natureza do Pai, QUE FOI SUA FONTE”[1]. Portanto, para crer na geração eterna de forma acertada, devemos professar que o Pai é a fonte da Essência do Filho, ou seja, há uma comunicação de essência do Pai pro Filho desde a eternidade. Calvino rechaça isso afirmando que “quem disser que o Filho tem recebido a sua essência do Pai nega que ele seja de si mesmo”[2]. Ou seja, para Calvino, afirmar (como os credos ecumênicos fizeram) que Jesus recebeu sua essência do Pai é cair em subordinacionismo/arianismo. Para ele, temos uma dicotomia: ou afirmamos que o Filho é ‘Deus de si mesmo’ — Autotheos — (preservando o atributo da Asseidade divina, segundo o qual, Deus tem o seu ser de forma completamente independente de fontes extrínsecas) ou afirmamos que o Filho recebe sua essência do Pai. Implícita e logicamente, Calvino acusa todo aquele que ensina que o Filho tem sua essência divina por comunicação de cair em heresia, sendo que essa é exatamente a doutrina dos credos.

Em contrário, François Turretini replica o argumento de Calvino,:

“Apesar do Filho ser do Pai, ainda sim ele pode ser chamado Deus de si mesmo (autotheos), não com respeito à sua pessoa, mas essência; não relativamente como Filho (pois assim ele é do Pai), mas absolutamente como Deus na medida que ele tem a essência divina existindo de si mesmo e não dividindo ou produzido de outra essência (mas não como tendo aquela essência de si mesmo)”[3].

Ou seja, a doutrina da Geração Eterna em nada implica o sacrifício da Asseidade divina de Jesus. Tampouco diminuiria sua dignidade. Pelo contrário, os pais da Igreja usaram exatamente o argumento da geração eterna e da comunicação de substância para provar a divindade e consubstancialidade do Pai e do Filho CONTRA os arianos.

Como o credo Niceno (325 d.C.) coloca:

“Creio em um Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado do Pai como unigênito, ou seja, da substância do Pai, Deus de Deus, luz de luz”…

Para que não reste dúvidas sobre o equivoco de Calvino, anexo mais duas citações do Exegeta:

“Ele [o Pai] é o princípio da Deidade, NÃO POR COMUNICAR ESSÊNCIA AO FILHO e ao Espírito, como argumentam os fanáticos, mas em razão de ordem hipostática”[4].

“Seria absurdo dizer que a Essência de Deus é impressa em Cristo…”[5].

Qualquer leitor dos comentários de Calvino, em especial, o comentário em Hebreus, notará o seu esforço em se esquivar de usar os versículos que falam sobre geração como “comunicação de Essência do Pai para o Filho”. Tal como Yago Martins, ele prefere interpretar tais versículos como referências a entronização de Jesus e/ou sua ressurreição.

Essas informações aqui expostas não nos devem fazer ficar ensoberbecidos mas nos levar a refletir sobre o fato de que até os mais gigantes de Deus podem se equivocar, se não falarem em conformidade com as Escrituras Sagradas. Sejamos humildes, para que nós também não sejamos apanhados em erro.

— — — — — — — Referências Bibliográficas — — — — — — —

[1] POITIERS, Hilário. De Synodis 84.

[2] CALVINO, João. Institutas I.13.23.

[3] TURRENTINI, François. Institutes of Elentic Theology — vol. 1. Pags. 292–293.

[4] Institutas I.14.26.

[5] Comentário em Hebreus 1:5, consultado na Biblioteca de João Calvino disponibilizada pela editora Fiel, p. 33.

Por: Jadson Targino

25/02/2021

Seminarista pelo CETAD/PB (seminário da Assembleia de Deus na Paraíba), tradutor e graduando em Ciências da Religião pela UFPB.

Seminarista pelo CETAD/PB (seminário da Assembleia de Deus na Paraíba), tradutor e graduando em Ciências da Religião pela UFPB.