Jacó Armínio vs. William Perkins: breve resenha do Debate

No ano de 1602, o pastor reformado e teólogo holandês Jacó Armínio engajou-se numa disputa com o teólogo puritano e clérigo inglês William Perkins acerca da ordem e do modo da Predestinação. Resumirei o debate, destacando alguns pontos interessantes e dignos de nota. Todas as citações de Armínio foram retiradas do livro “As Obras de Armínio — vol. 3” (2015), da CPAD/RJ.

1. Distante de ser uma disputa ordinária entre calvinistas e arminianos, na qual discutem-se, por vezes infrutiferamente, a interpretação de versículos específicos (análoga ao famigerado programa de televisão Vejam Só!), o debate que se desenrolou entre esses dois teólogos foi extremamente profundo e profícuo, na exata medida que (A) dialogou com as diversas disciplinas das humanidades, tais como filologia, filosofia, gramática e retórica, (2) versou principalmente sobre dois assuntos que estavam em alta na escolástica tardia: qual é o constitutivo formal do livre-arbítrio e a como se dá a eficiência dos auxílios concedidos por Deus ao homem (as graças). Portanto, estamos lidando com uma querela de altíssimo nível, perfumada com os aromas do brilhantismo escolástico. Armínio comenta: “a colaboração de Deus com as causas segundas, para realizar algum ato ou produzir alguma obra, é de dois aspectos: o auxílio geral e o auxílio especial de sua graça. É extremamente certo que nada de bom pode ser realizado por qualquer criatura racional sem esse auxílio especial de sua graça. Porém, se cabe à vontade divina, desejando isso absolutamente, transmitir esse gracioso auxílio, e por esta transmissão, realizar o bem em nós [irresistivelmente], é algo controverso entre os teólogoshá discussão a respeito do modo de prevenção [de pecados] — se pela ação onipotente da Divindade operando na vontade humana, segundo o modo da natureza, da qual existe a necessidade de prevenção, ou por uma ação que opera na vontade, segundo o modo da vontade, no que diz respeito a liberdade, da qual existe a certeza da prevenção”[1].

2. Armínio humildemente reconhece inabilidade para entrar em alguns meandros do debate acerca dos auxílios divinos: “Vejo aqui um labirinto em que não vou entrar agora, porque não teria como sair dele, exceto pela orientação do modo da colaboração de Deus com o homem, na realização de qualquer coisa boa, explicação que não cabe neste lugar, ou, como realmente RECONHEÇO, não se inclui entre as minhas habilidades” [2]. Em outro lugar, Armínio adiciona: “Iniciamos, aqui, uma discussão de grande dificuldade, e dificilmente explicável, pelo menos de minha parte, já que sou apenas um principiante e não estou suficientemente familiarizado com esses níveis da Teologia Sagrada”[3].

3. Armínio estava familiarizado com a interpretação infralapsariana da predestinação: “A predestinação de que as Escrituras tratam é a dos homens, em sua relação como pecadores; ela é feita em Cristo (…) Se, além disso, o ato da predestinação é a eleição prévia de alguns que deverão ser redimidos de sua depravação e o abandono de outros à sua depravação, com base nisto também fica evidente que a predestinação tem a ver com os homens, considerados pecadores”[4]. Boa parte da sua discordância com seus oponentes advinha do fato de que eles eram defensores de formas rígidas do supralapsarianismo. François Turretini, grande apologeta reformado e defensor do infralapsarianismo bem coloca: “A eleição dos homens é feita em Cristo (Ef 1.4). Por isso ela considera o homem já caído, porque ele não pode ser eleito em Cristo exceto para ser redimido e santificado por ele. Portanto, são escolhidos pecadores e miseráveis. (…) visto que ninguém pode ser eleito para a salvação e ser alcançado por Cristo exceto como perdido e miserável, o objeto dessa eleição deve ser o homem já caído”[5].

4. É completamente iníquo pintar a teologia de Armínio como uma ressurreição do Pelagianismo sendo que, ao longo do debate, diversas vezes Armínio se colocou a favor de Agostinho e, pasmem, contra Perkins! Muitas vezes, inclusive, corrigiu interpretações equivocadas de Perkins acerca da obra do bispo de Hipona. Equívocos assim são muito comuns em quem acha que Agostinho era um “calvinista antes de Calvino”, sendo que Agostinho defendia a possibilidade de apostasia e a expiação ilimitada, como mostro aqui. “Agostinho também admite isto em várias passagens. Citarei uma ou duas”[6]. “Essa interpretação de Agostinho é provada como verdadeira”[7]. Como se não bastasse, faz uso dos Pais da Igreja e de Tomás de Aquino: “A observação de Tomás de Aquino não favorece a sua opinião, nem se opõe a minha”[8] e “com referência aos sentimentos dos patriarcas, sem dúvidas, o senhor sabe que praticamente toda a antiguidade é da opinião de que os fiéis podem cair e perecem”[9].

5. Armínio sabia a importância de sustentar doutrinas do teísmo clássico como a impassibilidade divina, a presciência exaustiva e a omnicausalidade. “A expectativa é atribuída a Deus apenas por antropopatia”[10], “a incerteza não pode ser atribuída à vontade daquele que, em sua infinita sabedoria, tem todas as coisas sob seu completo controle, e com certeza conhece, previamente, todos os eventos futuros, até mesmo os mais contingentes”[11], “confesso abertamente que Deus é a causa de todos os atos que são perpetrados pelas suas criaturas, mas desejo apenas que a eficiência de Deus seja explicada de tal maneira , de modo a não subestimar nada da liberdade da criatura, e não transferir a Deus a culpa pelo pecado da criatura” [12].

6. Ele sabia reconhecer quando um argumento de seu oponente era realmente difícil de responder: “admito, no entanto, que este argumento é o mais forte entre aqueles mencionados até aqui” [13].

7. Tinha uma preocupação tão grande com o carácter de Deus que afirmava que “é melhor remover da Divindade um ato que pertence a Ele, do que atribuir a Ele um mau ato, que não pertence a Ele; assim será feita a Deus uma ofensa maior, se Ele for considerado como causa do pecado, do que se Ele for considerado como um espectador desinteressado de um ato” [14].

8. Armínio conhecia os escritos do cardeal italiano Roberto Belarmino, grande jesuíta, a ponto de reconhecer referências implícitas a ele somente por causa da ordem de versículos utilizadas por Perkins: “A seguir, vem a explicação de algumas passagens das Escrituras, que aqueles que exigem a graça suficiente estão acostumados a usar como prova. O senhor parece tê-las selecionado de Belarmino, que as apresenta, na mesma ordem que o senhor as usa” [15].

9. Junto a Agostinho corretamente distingue, contra Perkins e alguns calvinistas, que há graças suficientes e eficientes. Perkins e alguns calvinistas acreditavam que toda graça precisa ser de ordem eficiente: “as passagens de Agostinho mostram que a graça preparada para os predestinados certamente inclinará seus corações e não será rejeitada por eles, porque Deus usa tais persuasões para com eles, pois Ele sabe que será adequado para eles, e adaptados a persuadi-los. A esta, ela chama graça eficaz, e sempre a distingue da graça suficiente. O senhor [Perkins], no entanto, ao citar Agostinho, com suficiente arrogância, repudia esta distinção” [16].

10. Reconhece que se Deus quisesse, poderia sim, por sua onipotência vencer os impedimentos nas criaturas livres, embora isso não seria conveniente (contra alguns arminianos modernos e molinistas, que dizem que isso seria intrinsecamente impossível): “pode ser possível, para onipotência absoluta de Deus [corrigir a sua iniquidade], mas não é adequado que Deus corrija, dessa maneira, a iniquidade da criatura” [17].

11. Ensinou que “ninguém tem fé, exceto pelo dom de Deus, embora possa haver dúvida de que o homem tem a livre escolha de não crer”[18].

12. Como Perkins negava a expiação ilimitada, não compreendia que uma graça suficiente era ministrada a todos os homens com base na cruz de Cristo. Armínio corretamente pontua que isso tornaria o pecado uma ação necessária, e não livre. Isso ocasionaria dois problemas (1) absolveria o pecador, desculpando-o, tendo em vista que ninguém pode ser punido por fazer algo que ele não poderia deixar de fazer. O que é feito por necessidade, não pode ter sido feito com responsabilidade, tendo em vista que não foi livre, (2) tornaria Deus a causa do pecado. “O senhor não consegue desatar o nó, pois sempre permanece verdade que uma negação da graça, necessária para evitar o pecado, é uma causa do pecado…. sempre será falso, que peca livre e voluntariamente, aquele que não consegue se abster de pecar” [19].

13. Lança um argumento gramatical excelente para a expiação ilimitada: “A sua falsidade consiste no fato de que Cristo é considerado como aquele que sustentou, na cruz, apenas o carácter dos eleitos. Provo isso com base no fato de que as Escrituras não dizem isso em nenhuma parte; na verdade, elas afirmam o contrário em várias passagens. Cristo é chamado o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29). Está escrito que Deus “amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito” (Jo 3:16). Cristo declara que dará “a sua carne pela vida do mundo” (Jo 6:51). “Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo” (2 Co 5:19) “Ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo (1 Jo 2:2). Os samaritanos disseram: “Sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do Mundo” (Jo 4:42). Também 1 Jo 4:14: “E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do Mundo”. O fato de que, pela palavra “mundo”, nestas passagens, deve-se entender todos os homens de maneira geral, é manifesto por essas passagens e pelos usos das Escrituras. Pois não existe, em minha opinião, nenhuma passagem em toda a Bíblia, em que possa ser provado, sem nenhuma controvérsia, que a palavra “mundo” significa “eleitos””[20].

Referências Bibliográficas:

[2] p. 281.

[3] p. 354.

[4] p. 283, 288.

[5] TURRETINI, François. Compêndio de Teologia Apologética. 1 ed. São Paulo: Cultura Cristã. 2011, p. 445.

[6] Armínio, p. 308–309.

[7] p. 350.

[8] p. 378.

[9] P. 459.

[10] p. 479.

[11] p. 434.

[12] p. 418.

[13] p. 460.

[14] p. 422.

[15] p. 477.

[16] p. 474.

[17] p. 433.

[18] p. 434.

[19] p. 392.

[20] p. 334.

Por: Jadson Targino

12/12/2020.

Seminarista pelo CETAD/PB (seminário da Assembleia de Deus na Paraíba), tradutor e graduando em Ciências da Religião pela UFPB.

Seminarista pelo CETAD/PB (seminário da Assembleia de Deus na Paraíba), tradutor e graduando em Ciências da Religião pela UFPB.