1 Jo 2:2 e a Extensão da Expiação — rev. Jordan Cooper

Lamb of God

Um dos textos mais fundamentais que fala contra uma compreensão calvinista da expiação é 1 João 2:2: “Ele [Jesus] é o sacrifício expiatório pelos nossos pecados, e não apenas pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro.” A posição reformada é que a morte de Cristo foi apenas para os eleitos, com a possível exceção da graça comum sendo comprada por meio da cruz.

Então, como o calvinista responde a um texto como este? Não é que os comentaristas reformados tenham ignorado esse versículo, mas eles tentam encaixá-lo em sua teologia. Primeiro, perguntam: “o que significa mundo?”. Revela-se que “mundo” pode ter múltiplos significados. Nós fazemos isso até hoje. Por exemplo, falamos sobre “o mundo, a carne e o diabo”. Também falamos sobre o mundo como todas as etnias. Poderíamos falar do mundo como o próprio planeta Terra. Da mesma forma, os escritores bíblicos usaram kosmos de várias maneiras diferentes.

Eu concordo com os comentaristas reformados nisso. As palavras certamente podem ter vários significados. No entanto, devemos olhar para o contexto da passagem, como o próprio autor usa essa palavra, e tomar o significado mais óbvio do texto, a menos que haja evidências substanciais para interpretá-lo de maneira diferente do significado simples. Então, o que o autor aqui quis dizer quando disse que Cristo morreu pelos pecados do mundo inteiro? Um reformado tomará este texto, bem como vários outros e afirmará que “o mundo inteiro” se refere a pessoas de todas as nações, embora apenas os eleitos de todas as nações, ao invés de simplesmente judeus. Eles vão a uma instância semelhante no evangelho de João. Em João 3:16, Jesus está falando com um judeu explicando que a salvação é para todo o mundo, não apenas para os judeus. Independentemente de eu concordar ou não com esta interpretação de João 3:16, é uma interpretação compreensível no contexto. No entanto, 1 João 2:2 é um texto diferente, falado para um público diferente e não tem o mesmo significado.

Sim, ao falar com judeus etnocêntricos, Jesus falou sobre a universalidade da salvação e sua principal implicação é que a salvação é para todas as nações (embora isso certamente não exclua a possibilidade de que essa universalidade se refira a todos os indivíduos nessas nações, pois não há implicação em o contexto de que ele se refere somente aos eleitos dessas nações).

No entanto, não há razão para acreditar que 1 João foi escrito para judeus etnocêntricos. Esta epístola está entre as últimas a serem escritas no Novo Testamento. No final do primeiro século, certamente o problema das relações entre judeus e gentios já havia sido resolvido. Afinal, o concílio de Jerusalém foi 40 anos antes disso e as epístolas de Paulo já haviam circulado amplamente há algum tempo. Assim, é difícil encontrar esse significado no texto. O único outro significado do texto deve ser que ele morreu por todos os homens. Os outros significados de kosmos não fariam sentido nesta passagem. João certamente não está dizendo que morreu pelos pecados da terra ou do solo.

Neste mesmo capítulo, João usa a palavra kosmos várias vezes.

“Não ame o mundo ou qualquer coisa no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo no mundo — os desejos do homem pecador, a concupiscência de seus olhos e a ostentação do que ele tem e faz — não vem do Pai, mas do mundo. O mundo e seus desejos passam, mas o homem que faz a vontade de Deus vive para sempre” (1 João 2: 15–17).

João usa o termo “mundo” nesta epístola para se referir à humanidade pecadora e à corrupção da era atual. Assim, o que João parece estar dizendo no início desta epístola é “Cristo morreu não apenas pelos nossos pecados (os pecados dos crentes), mas também pelos pecados do mundo (a humanidade descrente)”. De quem é o “nosso” de quem se fala aqui? Esta é uma epístola católica, não escrita especificamente para crentes judeus ou mesmo para uma igreja específica, portanto, o “nosso” deve se referir aos cristãos em geral. Portanto, o “mundo” é alguém diferente do “nós” a que se refere. Assim, se o “nós” é a igreja, o “mundo” deve ser aqueles fora da igreja.

Caso alguém queira entender o significado mais óbvio deste texto, deve admitir que Cristo morreu por todos os homens. Não devemos forçar nossas visões teológicas preconcebidas sobre a palavra de Deus. Deixe Deus falar por si mesmo.

Tradução: Jadson Targino

Disponível em: https://www.patheos.com/blogs/justandsinner/1-john-22-and-the-extent-of-the-atonement/

24/02/2021.

Sobre o autor:

Rev. Jordan Cooper é escritor, pastor luterano ordenado, professor adjunto de Teologia Sistemática e bolsista do Ministério da União Cristã na Universidade Cornell.

Seminarista pelo CETAD/PB (seminário da Assembleia de Deus na Paraíba), tradutor e graduando em Ciências da Religião pela UFPB.

Seminarista pelo CETAD/PB (seminário da Assembleia de Deus na Paraíba), tradutor e graduando em Ciências da Religião pela UFPB.